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Se correr é pior sobrevivendo os predadores do cotidiano

Está escuro… e você não consegue identificar de onde vem aquele som assustador que lentamente se aproxima. Sua respiração se torna curta e rápida, enquanto seus batimentos cardíacos aceleram de forma frenética. Você sente sua boca seca, seus músculos tensos, sua frio e treme diante do desconhecido. Em síntese, você está em meio a uma crise de ansiedade gerada pelo medo. Esta incômoda experiência, pela qual todos nós já passamos o longo da vida, era ainda mais comum para nossos antepassados pré-históricos. Afinal, estando distantes do topo da cadeia alimentar, por milhares de anos os humanos foram caçados por grandes predadores, sendo presas fácies para os carnívoros que espreitavam à noite. Em casos como este, as emoções negativas desempenharam um papel crucial para a sobrevivência de nossa espécie. Como explica Shaw Achor –pesquisador da Universidade de Harvard (EUA)- se você fosse um caçador pré-histórico e, de repente, visualizasse um tigre de dentes-de-sabre correndo na sua direção, o medo e o estresse proporcionariam a liberação de uma série de substâncias químicas que o deixariam apto para lutar ou para fugir daquela situação desafiadora (Achor 2017). Atualmente, é pouco provável que você se depare com um predador frio e calculista andando livremente pelas ruas (é mais fácil encontrá-los em escritórios, usando ternos caros e falando em tom agressivo). Porém, nossa sociedade se encontra repleta de novos obstáculos adaptativos, com os quais precisamos lidar todos os dias.
De acordo com o filósofo polonês Zygmunt Bauman, os medos mais comuns em nossa sociedade podem ser classificados em três categorias fundamentais:

1) o medo dos perigos que ameaçam a integridade do corpo e das propriedades;

2) o medo dos perigos que ameaçam a durabilidade social (medo de perder um emprego, por
exemplo);

3) o medo dos perigos que ameaçam o lugar do indivíduo no mundo, sua
posição social ou sua identidade (em outras palavras, o medo da exclusão) (Barbarini
2008).
Dessa forma, é facilmente perceptível que as emoções negativas – que outrora atuaram como uma ferramenta extremamente útil para nos manter vivos – já não funcionam com a mesma eficiência diante dos medos que agora nos tiram o sono.
Nesse sentido, Achor (2017) destaca os resultados das investigações realizadas por Barabara Fredrickson, professora do departamento de psicologia da Universidade da Carolina do Norte (EUA). Após décadas de profundas pesquisas, Fredrickson (2001) elaborou a chamada Broaden and Build Theory , ou Teoria da Expansão e Construção, voltada ao entendimento do papel evolutivo das emoções positivas. De acordo com esta teoria, ao invés de restringir nossas ações a lutar ou fugir, como fazem as emoções negativas, as emoções positivas expandem o número de possibilidades que processamos, tornando-nos mais ponderados, criativos e abertos à novas ideias. Desse modo, ao experimentarmos emoções positivas nosso cérebro é inundado com dopamina e serotonina, substâncias químicas que nos fazem sentir bem e que sintonizam os centros de aprendizado em um patamar mais alto. Com isso, ocorre uma amplificação de nossas habilidades para organizar novas informações e para armazenar as mesmas por um longo período de tempo, acessando-as mais rapidamente quando necessário. Além disso, criando e sustentando um maior número de conexões neurais, as emoções positivas nos tornam mais eficazes na análise de situações complexas e na resolução de problemas, ampliando nossa capacidade de encontrar soluções (Achor 2017). Portanto, quando encontrar seu próximo tigre de dentes-de-sabre, tente experimentar uma terceira alternativa. Entre lutar e correr existem muitas possibilidades. Permita que a positividade lhe ajude a enxergá-las.
Referências:
Achor, S. O jeito Harvard de ser feliz. São Paulo: Saraiva, 2017.
Barbarini, N. Medo líquido. Psicol. Argum., 2008, 26(53), p. 171-172.
Fredrickson, B. The role of positive emotions in positive psychology: the
broaden-and-build theory of positive emotions. American Psychologist, 2001, 56, p. 218-226.

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